Total de visualizações de página

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

15 de agosto de 2025 — João Pessoa, 24 horas sob chuva


Chove sem pressa.
O som constante da água costura o dia como uma linha cinza,
convidando à manta, ao chá, ao vinho,
aos livros que esperavam o seu momento.
Dentro de casa, o mundo é quase doce,
um refúgio aromatizado pelo café que ainda insiste em sair da cafeteira.

Mas o pensamento escapa pela janela.
Corre por ruas que já não se reconhecem,
onde o asfalto virou rio,
e o rio, ameaça.
Vê o guarda-chuva que não protege tudo,
o colchão que boia,
os olhos cansados de quem não tem onde se abrigar.

No aconchego, o vinho esquenta.
Na rua, a água gela.
É um dia de paradoxos:
entre o prazer silencioso e a angústia alheia,
entre o tempo que abraça e o tempo que devasta.


domingo, 21 de março de 2021





O Palhaço na Janela 



Moro no apartamento térreo de um pequeno prédio, num bairro pouco habitado e muito tranquilo. Todas as janelas, portas e varanda são gradeadas. Por estes motivos durmo tranquilamente com a janela do meu quarto aberta para sentir a brisa da noite me tocando suavemente. Nesta madrugada acordei com uma sensação estranha de que estava sendo observada, isso nunca havia acontecido antes. Sonolenta, olhei pela  janela e na mesma hora fiquei paralisada. Avistei ali do lado de fora, a figura de um palhaço me olhando fixamente e sorrindo, ele vestia a camisa da seleção brasileira e sua peruca era igual a do bolzo (sim, eu sei que isso soa tendencioso... talvez o medo da vida real esteja tão grande que acabou enraizando no meu subconsciente). Mas a verdade é que na hora fiquei paralisada de medo, não conseguia me mexer. Tentei gritar pelo meu filho, pois estava ouvindo ele acordado em seu quarto que fica de frente ao meu, e ambas as portas estavam abertas. Não consegui emitir nenhum som, não conseguia mover nenhum um dedo. O palhaço não parava de sorrir maliciosamente, e começou a apontar o dedo para mim lentamente, depois de alguns segundos, acenou e foi se afastando sem dar as costas. Quando ele sumiu finalmente consegui me mover e levantai rapidamente com um pulo, estava com o coração palpitando e ainda morta de medo. Saí correndo pela casa para me certificar de que estava tudo trancado e de que, se aquela coisa voltasse, não pudesse entrar. Meu filho ao perceber meu comportamento estranho, veio perguntar o que estava acontecendo. Eu não conseguia explicar, não conseguia dizer nada, estava em pânico. Só queria trancar tudo e empurrar o sofá até a porta da sala numa atitude boba movida pelo medo. Foi quando passando pelo corredor, avistei de relance uma sombra se movendo no quarto do meio que uso como escritório. Parei na mesma hora, e quando olhei estava ele lá, atravessando não sei como, por entre as grades da janela,  já praticamente dentro do quarto. Aquele mesmo sorriso medonho rasgando seu rosto. Paralisei na mesma hora. Gelei dos pés à cabeça, mas desta vez consegui dar um grito alto de tanto terror.   Acordei em minha cama suando frio, o coração disparado, invadida por um medo real, olhei imediatamente para a janela, não havia ninguém ali. Minha cabeça latejava de dor. Meu filho entrou correndo perguntando o que estava acontecendo, por que eu havia gritado? Respondi que não tinha acontecido nada, apenas havia tido um pesadelo. Levantei, bebi água, tomei um remédio para a dor e voltei para o meu quarto. Não  acredito em coisas sobrenaturais, então deixei a janela aberta assim como estava antes. Apenas não olhei mais para ela. Então deitei, e adormeci com a mesma sensação estranha de que estava sendo observada...  


sábado, 31 de agosto de 2013







Kiki, a Rainha da Rua de Baixo



Ninguém sabe como Kiki chegou na Rua de Baixo. Ninguém sabe de que ônibus desceu, se chegou de cegonha, se foi de táxi ou se foi de um avião de onde pulou de para-quedas. Simplesmente surgiu, assim, do nada. Apareceu ainda pequena,uma coisinha exótica, desfilando pela calçada com aquele andar capenga-rebolado que só um autêntico vira-latas sabe ter. Apareceu por ali revirando os sacos de lixo e abanando o rabo pequeno, quase cotó, pra um e outro que passava, só na intenção de que alguém lhe desse trela. É certo que no começo levou uns chega-pra-lá de gente estranha que não queria ver aquele animal feio (feio? que feio que nada! Isso é inveja heim), então, aquele animal rodeando suas pernas. Ora, feio, Kiki era muito linda na sua feiura. Era um ser ilustre, isso sim, perambulando elegante por aquela rua rica, dourada, perfumada, que rua magnífica! Sim, porque a Rua de Baixo era a rua mais mais de todas as ruas de todo o bairro. Ao menos, aos olhos de Kiki, que de repente parou, sentou nas patinhas traseiras cansadas, olhou bem ao redor com olhos de criança aprendendo uma brincadeira nova, sentiu uma felicidade sem explicação e percebeu com uma certeza inocente que ali seria seu lar.

Os dias foram passando e ela foi mesmo ficando... zanzando por aqui e por ali, sorrindo pra um, se balançando pra outro, a fim de conseguir o banquete do dia. E no final das contas Kiki venceu pelo cansaço e acabou se arranjando definitivamente. Foi aceita. Fixou residência. Venceu pelo cansaço, sim,  mas também pela simpatia. Aquela cachorrinha era uma danada de uma carismática, parecia que tava sempre sorrindo, que nem naquela música de Roberto Carlos. Seu faro aguçado e sexto sentido feminino lhe diziam que a Rua de Baixo era o seu lugar, ali era a melhor rua, era ali que iria se instalar. Seu reino. Afinal, uma rainha merece o melhor. Kiki era uma cadela confiante e não sofria de baixa estima.


Alguém que ninguém sabe quem, um dia amarrou um lencinho azul bordado com fios dourados no pescoço de Kiki, pronto, foi a coroação, ela ficou toda ancha, orgulhosa de si, só faltou se olhar no espelho e desfilar. E foi assim que a rotina se fez, costurando a vida de Kiki. A cadela passava horas tomando banho de sol, correndo atrás de alguma bicicleta, ou simplesmente tirando uma soneca embaixo de uma árvore, que aliás, eram o charme da Rua de Baixo, bem altas e frondosas, caules grossos e folhas largas. Sempre aparecia um ou outro para lhe dar comida, fez amizade com todos, e todos adoravam aquela coisinha estranha de prata e branca, que sempre tinha uma lambida carinhosa para qualquer um que se chegasse. E também era a vigia da rua, de noite fazia o maior carnaval se percebesse algo estranho nos arredores da casa de um de seus donos. Dormia embaixo da marquise do mercadinho da esquina, dentro de um caixote de madeira, forrado com um paninho, que seu Onofre, homem generoso, havia arranjado pra ela assim que chegou a nova inquilina. Todos conheciam Kiki. Kiki se tornou Kiki justamente porque no começo, os pirralhos da rua viviam chamando ela assim, Kiii Kiii Kiii, pronto, foi batizada, o nome ficou sendo Kiki. Ela gostou. Dona Carminha vez ou outra até levava ela pra dar banho, tomar vacina, olha só que luxo, era mesmo uma lady aquela danada. Foram anos de glória, e a rainha Kiki do andar capenga-rebolado reinava plena. Ô felicidade! As vezes, a gente olhava pra ela e percebia que ali tinha mesmo um bichinho cheio de alegria de viver.

 Num belo sábado de uma manhã cheirosa da primavera, o dia amanheceu claro, os raios de sol que passavam pelos galhos das árvores faziam clareiras douradas aqui e ali pelo chão. Era cedo ainda e lá vinham dona Penha e seu João devagarzinho indo pra feira, dona Penha trazia o café da manhã de Kiki, um punhado de ração dentro de um potinho, um pouco de leite morninho dentro de uma tigela, era a mordomia do final de semana, o ritual de sábado do casal já idoso, que faziam com muito gosto. Avistaram a cachorra em frente da casa de dona Inês, deitada. Foram se aproximando e chegando mais perto acharam que tinha alguma coisa esquisita, Kiki estava numa posição meio torta, não parecia confortável. Chegaram lá ao pé de Kiki. Pararam. Olharam calados por um tempo. Apertaram as mãos...logo entenderam... Kiki já não estava mais ali. Kiki tinha virado estrelinha, sem dar aviso prévio a ninguém. Dona Penha deu um suspiro tristonho, começou a choramingar, seu João lhe deu um abraço consolador. Foram bater na porta de dona Inês pra avisar, deixando o café da manhã de Kiki, que não seria mais café da manhã de ninguém, descansando no batente.


 Kiki morreu só. Ninguém sabe de quê. De velhice prematura talvez, cachorros de rua envelhecem mais rápido. Do mesmo jeito que apareceu naquela rua assim do nada, se foi também sem dar vexame. Cumpriu sua tarefa. Sua vida foi como deveria ter sido. Foi feliz, o tanto que uma vira-latas de rua poderia ser. Mesmo uma cachorra sem dono, teve vários donos, cuidou e foi cuidada. Teve uma rua que foi sua casa e seu reino. Teve amor.

 A Rainha da Rua de Baixo, que atendia por Kiki, batizada pelas crianças da rua, foi enterrada ao pé de sua árvore favorita, aquela em frente da casa de dona Inês, onde passou seus últimos minutos. Todos foram ver o enterro, até seu Onofre do mercadinho, deixou o caixa com alguém e foi fazer reverência. E foi assim o fim de Kiki nessa terra, a cachorrinha do andar capenga-rebolado que deixou marcada sua história na Rua de Baixo. Foi querida. E nunca apareceu outra pra ficar em seu lugar.

 Na primavera do ano seguinte nasceram flores onde a danada foi enterrada. Dona Inês cuidou de aguar todos os dias e contar a novidade. Todo mundo foi ver o acontecido inexplicável.


De Kiki floresceu um colorido pequeno jardim.



Fim














segunda-feira, 9 de julho de 2012




Rua de Baixo. O homem com R


Renato passava o dia assim, perambulando pela rua, sem rumo. Um vagabundo aos olhos de muitos. Gostava especialmente de sentar embaixo das árvores de copas altas das ruas de baixo, ficava olhando pra cima...Admirando seus troncos, galhos, as folhas de tamanhos e tons de verdes tão diferentes, e que as vezes caiam em leves rodipios imitando passos de bailarina. O tempo passava lento e ele ali olhando os galhos longos num abraço permanente lá no alto, formando um túnel de teto vivo. Harmonia.
 Naquele momento de filosofia de boteco, Renato faz uma analogia fajuta entre árvores e gente;as árvores não brigam entre si, não usam seus galhos para espetar o o tronco da outra. Já as pessoas não têm galhos, mas tem dedos, usados especialmente para acusar o outro,para apontar os erros, para te mostrar como voçe não é nada, não é ninguém. Fulano é isso, beltrano é aquilo. Rodrigo não gosta de pessoas, gente é mito complicada, estão sempre discutindo, cobrando algo do outro,cuspindo suas regras, envolvidas em seu egoísmo como o filme plástico envolvendo a bandeja do pão doce. Depois dizem com licença, por favor, obrigado e tá tudo certo.Gentinha de merda. Ele não entende bem essas convenções sociais. Enquanto divaga, submerso em seu monólogo, uma moça que vem descendo do outro lado  da rua, chama a atenção de Ricardo, uma menina magrinha, cabelos de fogo soltos ao vento, andava bem devagar, também com o olhar voltado para cima, estava como ele, apreciando aquelas árvores e seu ar sereno, pega uma bola que fugiu matreira de um grupo de meninos e vem saltitando em sua direção, devolve, ao mesmo tempo que dá uma mexida no cabelo do pirralho. O olhar dela perdido parece com o olhar de Roberto, não é habitual pessoas despertarem seu interesse, ela também está submersa.Ela também imergiu em águas profundas. A garota passa e vai embora com suas próprias histórias. Rodolfo volta aos seus devaneios, fica pensando como é gostosa aquela sombra, como é tranquilizador respirar ar puro, sentir a brisa no rosto, fechar os olhos e ouvir os sons do mundo. Todo dia Ronaldo passa o dia fazendo a mesma coisa, nada, uma vida simples é o que sempre quis.Alguns confundem com vagabundagem rsrs. Outros têm um certo medo desse sujeito estranho que tá sempre jogado pelos cantos. Rogério nem liga, não se importa com convenções sociais. 
 Pega o celular pra ver a hora, quatro e três. Levanta, e ao mesmo tempo cai uma manga bem à sua frente, pega a  manga, cheirosa, huummm, leva pra casa. Anda por mais uns três minutos rua abaixo e para em frente a uma pequena casa estilo antigo, arquitetura anos 70, sei lá, ele acha que é. Bem bonitinha. Dá um suspiro e abre o portão de ferro que faz um rangido sofrido. Fecha sem muito compromisso. Raí passa pelo jardim sem flores e entra porta a dentro. Quatro e dez. Seu filhinho pula do sofá e corre ao encontro do pai, que abraço gostoso, a casa inteira está perfumada com o cheirinho bom da comida de sua esposa, uma mulher linda,de personalidade forte, decidida, inteligente e carinhosa. Depois do jantar Romário vai se arrumar para ir trabalhar, veste a farda limpinha, que ele mesmo faz questão de lavar e passar. Põe a arma no coldre,trabalha como segurança numa importadora. Tem uma vida boa, quase perfeita. Mas sempre algo o perturba, lhe deixa inquieto, insatisfeito. Mas hoje teve uma certeza e tomou uma decisão. Percebeu que não ha sentido algum. Fodam-se. Beijou a esposa e o filho, foi trabalhar. Havia passado bons momentos de tarde, foi um dia bom, conseguiu clarear algumas ideias. Pensou que talvez hoje usaria pela primeira vez sua arma de trabalho. Saiu de casa e fechou o portão sem olhar pra trás.
 Raul nunca mais voltou.

domingo, 14 de agosto de 2011



Placidez



E cai uma chuva tão fininha e tão leve
Que o vento se torna um parceiro coreógrafo
Numa valsa quase surda de suaves uivos
Um balé descompromissado na noite serena



Eli  13.08.11

domingo, 31 de julho de 2011

Mal na foto

Querido maldito, e único amigo diário. Parece que só me resta você. Não tou aguentando o tranco e minha cabeça já dá sinais de que o "tilt" não demora. Me sinto envenenada, tomada pelo vazio sujo, impregnada de uma espécie de sentimento rancoroso magoado. Sim, eu guardo mágoas. Cheguei ao fim da estrada, duro asfalto, e agora só consigo enxergar por trás de uma neblina fria, densa. Parece que não há saída. Não há saída. Depressiva? Eu não sou depressiva. Detesto lamúrias. Acho apenas que agora vejo as coisas de forma clara. Clara, apesar da neblina. Vejo as pessoas como realmente são, o mundo como realmente é; deformado. Como já dizia um grande amigo, "a humanidade é podre". Moro nesse mundo deformado. Acordo, durmo, como, ando, cago e mijo. E sinto. Eu sinto. Então não há como fugir. Não há saída. Querido diário: eu nunca vou sair bem na foto.


31.07.2011