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domingo, 14 de agosto de 2011



Placidez



E cai uma chuva tão fininha e tão leve
Que o vento se torna um parceiro coreógrafo
Numa valsa quase surda de suaves uivos
Um balé descompromissado na noite serena



Eli  13.08.11

domingo, 31 de julho de 2011

Mal na foto

Querido maldito, e único amigo diário. Parece que só me resta você. Não tou aguentando o tranco e minha cabeça já dá sinais de que o "tilt" não demora. Me sinto envenenada, tomada pelo vazio sujo, impregnada de uma espécie de sentimento rancoroso magoado. Sim, eu guardo mágoas. Cheguei ao fim da estrada, duro asfalto, e agora só consigo enxergar por trás de uma neblina fria, densa. Parece que não há saída. Não há saída. Depressiva? Eu não sou depressiva. Detesto lamúrias. Acho apenas que agora vejo as coisas de forma clara. Clara, apesar da neblina. Vejo as pessoas como realmente são, o mundo como realmente é; deformado. Como já dizia um grande amigo, "a humanidade é podre". Moro nesse mundo deformado. Acordo, durmo, como, ando, cago e mijo. E sinto. Eu sinto. Então não há como fugir. Não há saída. Querido diário: eu nunca vou sair bem na foto.


31.07.2011

sábado, 7 de maio de 2011



É Tempo de Flora


Mais um passo Flora dá a cada dia na calçada esburacada à mesma hora sob a luz de um sol tórrido amarelado. Cínico, ele sorria. Flora corria.
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Cançaso
Rotina
Fracaço
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Flora passa pelas ruas, belas ruas coloridas verdejantes. As mesmas ruas. Todas tuas. Anos e mais anos. Aos olhos de Flora agora desbotadas ressequidas sem tesão. Nuas.
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Mesmice
Fadiga
Crendice
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 Espera um pouco! Flora acorda! Manda às favas, não vai mais, quer nem saber, pagou pra ver, a hora é outra, quer ser louca. Se joga Flora! Tudo ao mesmo tempo. Agora.

sexta-feira, 1 de abril de 2011



Uma boa ideia

                Não lembro exatamente como tudo começou, apenas sei que hoje não consigo mais controlar as ideias, essas tais ideias, que não param de aflorar a cada minuto em minha já antes perturbada cabecinha. No começo até achei legal, pensei que estava tendo surtos de criatividade literária, seria eu uma iminente escritora famosa? Best selers? Autógrafos? Rios de dinheiro? Ôba! Isto seria demais! Então deixei tudo fluir, as ideias vinham em forte correnteza, e eu as escrevia, escrevia, escrevia. Dias se passaram e algo ainda mais estranho veio junto com o incontrolável desejo de escrever: a também incontrolável vontade desvairada de queimar tudo aquilo que escrevia. Era mesmo um prazer, quase sexual, pegar uma caneta e escrever, deixar tudo transbordar naquela folha em branco, era como as preliminares...Depois acender a chama, ver tudo virar cinzas, ali era o gozo.
                Mas aquilo foi se tornando sério demais, um tormento, já não conseguia mais trabalhar, comer, nem dormir, a todo instante um turbilhão de ideias me assaltavam, de todos os gêneros, de todas as cores, sabores. E eu ali, descontrolada, dia a dia toda hora escrevia, escrevia, no ônibus, no trabalho, na cozinha.  E o gozo sempre vinha nas belas chamas, indecentes.
                As coisas já fugiam há muito do controle, fui demitida, o namorado pulou fora, amigos então, nem lembro mais quem eram, enclausurada em casa, no meu ninho, não comia, só bebia. E escrevia. E queimava tudo que escrevia. A casa toda, um mar de cinzas e poesias, e aresias. Nas paredes, nos móveis, no chão, palavras, apenas palavras, papel aqui já não havia.
                Era uma manhã de verão, pássaros cantando, céu azul. E um burburinho de ideias fresquinhas já aflorando, mais tormento.
                Porém, hoje, o fim da tormenta.
                Sentada no chão de cinzas, delineei cada palavra com especial cuidado, na pele delicada, acetinada, o mais precioso dos papéis. E assim um fluxo de conceitos, e pré-conceitos, toda a história contida escorreu sem entraves, sem atropelos, o texto perfeito, a preliminar perfeita...E agora o gozo. Ah, o gozo...Aquele jamais sentido, um mar de chamas, fogo vivo, lindas labaredas lambuzavam todo meu eu.
                Meu eu.
                O final perfeito.
                A ideia perfeita.


Eli
João Pessoa,em algum dia iluminado de outubro de 2009

segunda-feira, 28 de março de 2011




É Luta Companheiro!

         Mimi Boina Verde acabara de tomar aquele café da manhã bem reforçado. Na noite anterior recebera um e-mail designando-a para mais uma missão: levar suplementos alimentícios e munição extra para Isaura Velha de Guerra, que se encontrava ilhada  no acampamento Delta Bx a 100km oeste dali. Armada até os dentes, retocou a maquiagem, ajeitou a boina “de ladinho”, ficou pronta para cair floresta adentro, olhando-se no espelho e fazendo biquinho, pensou: “amiga, se jogaaaaaaa”. Tudo “ok”, nunca falhara em uma missão e desta vez não seria diferente, com certeza estaria de volta à noite para mais uma sessão do cine prive.
         Fechou a porta atrás de si, olhou ao redor, e soltou seu jargão preferido: 
- Hasta la vista, baby!
        



Rua de Baixo. A moça ruiva e o ponto final.

 A luz do sol abrilhantou tudo ao redor quando abri a enorme  janela do quarto. Por dentro, as trevas  há muito habitavam cada qual o seu terreno. Está um dia lindo, mesmo assim sua beleza não me toca. Meu humor, assim como todo meu ser, está sempre mais para Augusto dos Anjos do que para Augusto Cury, mas, minhas angústias são só minhas. Guardo tudo na pequena gaveta do criado-mudo e saio.
 Vou andando devagar apreciando cada detalhe de cada casa, de cada pessoa que passa por mim, displicentes,  imersaS em seus próprios pensamentos. Meu corpo magro se deleita com o calor do sol, e meus cabelos vermelhos dançam livres soltos ao vento. Vejo um grupo de crianças brincando com umas bolinhas bem coloridas saltitantes, pego uma que veio pulando em minha direção, entrego para um dos meninos com um sorriso e um afago em sua cabeleira despenteada. Continuo meu passeio, passo por uma rua encantadora, pontuada por grandes árvores de tons de verdes diferentes, o que dá um charme a mais na paisagem. Sons de pássaros...me acalmam.
 Degustando os sabores da manhã, vou chegando ao centro. O cenário muda, barulho de automóveis, muita gente pra lá e pra cá, umas conversando alto, outras apressadas, burburinho.
Também gosto das coisas assim, adoro movimento. Chego enfim no café de onde já sou freguesa, cumprimento as moças, sento e peço o cappuccino de costume. Que delícia.Quase gozo. Mais gostoso que de costume.Saboreio sem pressa folheando um jornal de estava à mesa. Observo as pessoas indo e vindo, gosto de pensar como é a vida de cada uma delas, pra onde estão indo, como é a casa onde moram, como são seus amigos, sua rotina...Enfim tiro o vidrinho cheio de um pó que trouxe na bolsa, despejo todo o seu conteúdo na xícara, sem pressa, com calma. Mexo bem, absorvo com um prazer especial os últimos goles. Estou serena, sorrio para mim mesma, fecho os olhos, e espero. Feliz.

Eli
12.03.11