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segunda-feira, 9 de julho de 2012




Rua de Baixo. O homem com R


Renato passava o dia assim, perambulando pela rua, sem rumo. Um vagabundo aos olhos de muitos. Gostava especialmente de sentar embaixo das árvores de copas altas das ruas de baixo, ficava olhando pra cima...Admirando seus troncos, galhos, as folhas de tamanhos e tons de verdes tão diferentes, e que as vezes caiam em leves rodipios imitando passos de bailarina. O tempo passava lento e ele ali olhando os galhos longos num abraço permanente lá no alto, formando um túnel de teto vivo. Harmonia.
 Naquele momento de filosofia de boteco, Renato faz uma analogia fajuta entre árvores e gente;as árvores não brigam entre si, não usam seus galhos para espetar o o tronco da outra. Já as pessoas não têm galhos, mas tem dedos, usados especialmente para acusar o outro,para apontar os erros, para te mostrar como voçe não é nada, não é ninguém. Fulano é isso, beltrano é aquilo. Rodrigo não gosta de pessoas, gente é mito complicada, estão sempre discutindo, cobrando algo do outro,cuspindo suas regras, envolvidas em seu egoísmo como o filme plástico envolvendo a bandeja do pão doce. Depois dizem com licença, por favor, obrigado e tá tudo certo.Gentinha de merda. Ele não entende bem essas convenções sociais. Enquanto divaga, submerso em seu monólogo, uma moça que vem descendo do outro lado  da rua, chama a atenção de Ricardo, uma menina magrinha, cabelos de fogo soltos ao vento, andava bem devagar, também com o olhar voltado para cima, estava como ele, apreciando aquelas árvores e seu ar sereno, pega uma bola que fugiu matreira de um grupo de meninos e vem saltitando em sua direção, devolve, ao mesmo tempo que dá uma mexida no cabelo do pirralho. O olhar dela perdido parece com o olhar de Roberto, não é habitual pessoas despertarem seu interesse, ela também está submersa.Ela também imergiu em águas profundas. A garota passa e vai embora com suas próprias histórias. Rodolfo volta aos seus devaneios, fica pensando como é gostosa aquela sombra, como é tranquilizador respirar ar puro, sentir a brisa no rosto, fechar os olhos e ouvir os sons do mundo. Todo dia Ronaldo passa o dia fazendo a mesma coisa, nada, uma vida simples é o que sempre quis.Alguns confundem com vagabundagem rsrs. Outros têm um certo medo desse sujeito estranho que tá sempre jogado pelos cantos. Rogério nem liga, não se importa com convenções sociais. 
 Pega o celular pra ver a hora, quatro e três. Levanta, e ao mesmo tempo cai uma manga bem à sua frente, pega a  manga, cheirosa, huummm, leva pra casa. Anda por mais uns três minutos rua abaixo e para em frente a uma pequena casa estilo antigo, arquitetura anos 70, sei lá, ele acha que é. Bem bonitinha. Dá um suspiro e abre o portão de ferro que faz um rangido sofrido. Fecha sem muito compromisso. Raí passa pelo jardim sem flores e entra porta a dentro. Quatro e dez. Seu filhinho pula do sofá e corre ao encontro do pai, que abraço gostoso, a casa inteira está perfumada com o cheirinho bom da comida de sua esposa, uma mulher linda,de personalidade forte, decidida, inteligente e carinhosa. Depois do jantar Romário vai se arrumar para ir trabalhar, veste a farda limpinha, que ele mesmo faz questão de lavar e passar. Põe a arma no coldre,trabalha como segurança numa importadora. Tem uma vida boa, quase perfeita. Mas sempre algo o perturba, lhe deixa inquieto, insatisfeito. Mas hoje teve uma certeza e tomou uma decisão. Percebeu que não ha sentido algum. Fodam-se. Beijou a esposa e o filho, foi trabalhar. Havia passado bons momentos de tarde, foi um dia bom, conseguiu clarear algumas ideias. Pensou que talvez hoje usaria pela primeira vez sua arma de trabalho. Saiu de casa e fechou o portão sem olhar pra trás.
 Raul nunca mais voltou.