Kiki, a Rainha da Rua de Baixo
Ninguém sabe como Kiki chegou na Rua de Baixo. Ninguém sabe de que ônibus desceu, se chegou de cegonha, se foi de táxi ou se foi de um avião de onde pulou de para-quedas. Simplesmente surgiu, assim, do nada. Apareceu ainda pequena,uma coisinha exótica, desfilando pela calçada com aquele andar capenga-rebolado que só um autêntico vira-latas sabe ter. Apareceu por ali revirando os sacos de lixo e abanando o rabo pequeno, quase cotó, pra um e outro que passava, só na intenção de que alguém lhe desse trela. É certo que no começo levou uns chega-pra-lá de gente estranha que não queria ver aquele animal feio (feio? que feio que nada! Isso é inveja heim), então, aquele animal rodeando suas pernas. Ora, feio, Kiki era muito linda na sua feiura. Era um ser ilustre, isso sim, perambulando elegante por aquela rua rica, dourada, perfumada, que rua magnífica! Sim, porque a Rua de Baixo era a rua mais mais de todas as ruas de todo o bairro. Ao menos, aos olhos de Kiki, que de repente parou, sentou nas patinhas traseiras cansadas, olhou bem ao redor com olhos de criança aprendendo uma brincadeira nova, sentiu uma felicidade sem explicação e percebeu com uma certeza inocente que ali seria seu lar.
Os dias foram passando e ela foi mesmo ficando... zanzando por aqui e por ali, sorrindo pra um, se balançando pra outro, a fim de conseguir o banquete do dia. E no final das contas Kiki venceu pelo cansaço e acabou se arranjando definitivamente. Foi aceita. Fixou residência. Venceu pelo cansaço, sim, mas também pela simpatia. Aquela cachorrinha era uma danada de uma carismática, parecia que tava sempre sorrindo, que nem naquela música de Roberto Carlos. Seu faro aguçado e sexto sentido feminino lhe diziam que a Rua de Baixo era o seu lugar, ali era a melhor rua, era ali que iria se instalar. Seu reino. Afinal, uma rainha merece o melhor. Kiki era uma cadela confiante e não sofria de baixa estima.
Os dias foram passando e ela foi mesmo ficando... zanzando por aqui e por ali, sorrindo pra um, se balançando pra outro, a fim de conseguir o banquete do dia. E no final das contas Kiki venceu pelo cansaço e acabou se arranjando definitivamente. Foi aceita. Fixou residência. Venceu pelo cansaço, sim, mas também pela simpatia. Aquela cachorrinha era uma danada de uma carismática, parecia que tava sempre sorrindo, que nem naquela música de Roberto Carlos. Seu faro aguçado e sexto sentido feminino lhe diziam que a Rua de Baixo era o seu lugar, ali era a melhor rua, era ali que iria se instalar. Seu reino. Afinal, uma rainha merece o melhor. Kiki era uma cadela confiante e não sofria de baixa estima.
Alguém que ninguém sabe quem, um dia amarrou um lencinho azul bordado com fios dourados no pescoço de Kiki, pronto, foi a coroação, ela ficou toda ancha, orgulhosa de si, só faltou se olhar no espelho e desfilar. E foi assim que a rotina se fez, costurando a vida de Kiki. A cadela passava horas tomando banho de sol, correndo atrás de alguma bicicleta, ou simplesmente tirando uma soneca embaixo de uma árvore, que aliás, eram o charme da Rua de Baixo, bem altas e frondosas, caules grossos e folhas largas. Sempre aparecia um ou outro para lhe dar comida, fez amizade com todos, e todos adoravam aquela coisinha estranha de prata e branca, que sempre tinha uma lambida carinhosa para qualquer um que se chegasse. E também era a vigia da rua, de noite fazia o maior carnaval se percebesse algo estranho nos arredores da casa de um de seus donos. Dormia embaixo da marquise do mercadinho da esquina, dentro de um caixote de madeira, forrado com um paninho, que seu Onofre, homem generoso, havia arranjado pra ela assim que chegou a nova inquilina. Todos conheciam Kiki. Kiki se tornou Kiki justamente porque no começo, os pirralhos da rua viviam chamando ela assim, Kiii Kiii Kiii, pronto, foi batizada, o nome ficou sendo Kiki. Ela gostou. Dona Carminha vez ou outra até levava ela pra dar banho, tomar vacina, olha só que luxo, era mesmo uma lady aquela danada. Foram anos de glória, e a rainha Kiki do andar capenga-rebolado reinava plena. Ô felicidade! As vezes, a gente olhava pra ela e percebia que ali tinha mesmo um bichinho cheio de alegria de viver.
Num belo sábado de uma manhã cheirosa da primavera, o dia amanheceu claro, os raios de sol que passavam pelos galhos das árvores faziam clareiras douradas aqui e ali pelo chão. Era cedo ainda e lá vinham dona Penha e seu João devagarzinho indo pra feira, dona Penha trazia o café da manhã de Kiki, um punhado de ração dentro de um potinho, um pouco de leite morninho dentro de uma tigela, era a mordomia do final de semana, o ritual de sábado do casal já idoso, que faziam com muito gosto. Avistaram a cachorra em frente da casa de dona Inês, deitada. Foram se aproximando e chegando mais perto acharam que tinha alguma coisa esquisita, Kiki estava numa posição meio torta, não parecia confortável. Chegaram lá ao pé de Kiki. Pararam. Olharam calados por um tempo. Apertaram as mãos...logo entenderam... Kiki já não estava mais ali. Kiki tinha virado estrelinha, sem dar aviso prévio a ninguém. Dona Penha deu um suspiro tristonho, começou a choramingar, seu João lhe deu um abraço consolador. Foram bater na porta de dona Inês pra avisar, deixando o café da manhã de Kiki, que não seria mais café da manhã de ninguém, descansando no batente.
Kiki morreu só. Ninguém sabe de quê. De velhice prematura talvez, cachorros de rua envelhecem mais rápido. Do mesmo jeito que apareceu naquela rua assim do nada, se foi também sem dar vexame. Cumpriu sua tarefa. Sua vida foi como deveria ter sido. Foi feliz, o tanto que uma vira-latas de rua poderia ser. Mesmo uma cachorra sem dono, teve vários donos, cuidou e foi cuidada. Teve uma rua que foi sua casa e seu reino. Teve amor.
A Rainha da Rua de Baixo, que atendia por Kiki, batizada pelas crianças da rua, foi enterrada ao pé de sua árvore favorita, aquela em frente da casa de dona Inês, onde passou seus últimos minutos. Todos foram ver o enterro, até seu Onofre do mercadinho, deixou o caixa com alguém e foi fazer reverência. E foi assim o fim de Kiki nessa terra, a cachorrinha do andar capenga-rebolado que deixou marcada sua história na Rua de Baixo. Foi querida. E nunca apareceu outra pra ficar em seu lugar.
Na primavera do ano seguinte nasceram flores onde a danada foi enterrada. Dona Inês cuidou de aguar todos os dias e contar a novidade. Todo mundo foi ver o acontecido inexplicável.
De Kiki floresceu um colorido pequeno jardim.
Fim
Num belo sábado de uma manhã cheirosa da primavera, o dia amanheceu claro, os raios de sol que passavam pelos galhos das árvores faziam clareiras douradas aqui e ali pelo chão. Era cedo ainda e lá vinham dona Penha e seu João devagarzinho indo pra feira, dona Penha trazia o café da manhã de Kiki, um punhado de ração dentro de um potinho, um pouco de leite morninho dentro de uma tigela, era a mordomia do final de semana, o ritual de sábado do casal já idoso, que faziam com muito gosto. Avistaram a cachorra em frente da casa de dona Inês, deitada. Foram se aproximando e chegando mais perto acharam que tinha alguma coisa esquisita, Kiki estava numa posição meio torta, não parecia confortável. Chegaram lá ao pé de Kiki. Pararam. Olharam calados por um tempo. Apertaram as mãos...logo entenderam... Kiki já não estava mais ali. Kiki tinha virado estrelinha, sem dar aviso prévio a ninguém. Dona Penha deu um suspiro tristonho, começou a choramingar, seu João lhe deu um abraço consolador. Foram bater na porta de dona Inês pra avisar, deixando o café da manhã de Kiki, que não seria mais café da manhã de ninguém, descansando no batente.
Kiki morreu só. Ninguém sabe de quê. De velhice prematura talvez, cachorros de rua envelhecem mais rápido. Do mesmo jeito que apareceu naquela rua assim do nada, se foi também sem dar vexame. Cumpriu sua tarefa. Sua vida foi como deveria ter sido. Foi feliz, o tanto que uma vira-latas de rua poderia ser. Mesmo uma cachorra sem dono, teve vários donos, cuidou e foi cuidada. Teve uma rua que foi sua casa e seu reino. Teve amor.
A Rainha da Rua de Baixo, que atendia por Kiki, batizada pelas crianças da rua, foi enterrada ao pé de sua árvore favorita, aquela em frente da casa de dona Inês, onde passou seus últimos minutos. Todos foram ver o enterro, até seu Onofre do mercadinho, deixou o caixa com alguém e foi fazer reverência. E foi assim o fim de Kiki nessa terra, a cachorrinha do andar capenga-rebolado que deixou marcada sua história na Rua de Baixo. Foi querida. E nunca apareceu outra pra ficar em seu lugar.
Na primavera do ano seguinte nasceram flores onde a danada foi enterrada. Dona Inês cuidou de aguar todos os dias e contar a novidade. Todo mundo foi ver o acontecido inexplicável.
De Kiki floresceu um colorido pequeno jardim.
Fim
