Chove sem pressa.
O som constante da água costura o dia como uma linha cinza,
convidando à manta, ao chá, ao vinho,
aos livros que esperavam o seu momento.
Dentro de casa, o mundo é quase doce,
um refúgio aromatizado pelo café que ainda insiste em sair da cafeteira.
Mas o pensamento escapa pela janela.
Corre por ruas que já não se reconhecem,
onde o asfalto virou rio,
e o rio, ameaça.
Vê o guarda-chuva que não protege tudo,
o colchão que boia,
os olhos cansados de quem não tem onde se abrigar.
No aconchego, o vinho esquenta.
Na rua, a água gela.
É um dia de paradoxos:
entre o prazer silencioso e a angústia alheia,
entre o tempo que abraça e o tempo que devasta.
Nenhum comentário:
Postar um comentário